Afonso Martins
Karma está caminhando por entre uma vizinhança tranquila, completamente vazia. Composta principalmente de pequenos sobrados colados uns aos outros, sem quintal, com a rua bem estreita e uma padaria de bairro na esquina. Mesmo não tendo nenhuma alma, curiosamente ouve-se sons de crianças alegres correndo e brincando, além de algumas vozes abafadas de adultos.
Ela está como uma mulher em seus 30
anos, usa um vestido de alça rodado cor salmão e botas coturno, junto de um
boné preto escrito “Karma” estilizado como uma capa de álbum de heavy metal.
Ela observa com atenção o bairro que, apesar de calmo, exala uma aura um pouco
assustadora.
- Hmm, interessante.
Ela estende a mão para a direita e
aparece um papel, sempre junto do fio verde, no topo está escrito bem grande
“Afonso Martins”. Conforme lê, um grande e bizarro sorriso aparece em seu
rosto, como se as palavras que lê tivessem um gosto incrivelmente saboroso para
ela. O fio está com uma boa parte dele queimado e se desfazendo. Fecha a carta
e a guarda na bota.
- Bom, parece que esse cara tá com
azar hoje, acordei com vontade de brincar com uma alma nova.
Continua andando até que finalmente
encontra alguém sentado em frente a padaria igualmente vazia. É um idoso
praticamente careca, mas com um grande e formoso bigode grisalho, usa uma
camiseta com uma estampa de praia, bermuda verde e sandálias. Lê um jornal com
notícias absurdas e inventadas (provavelmente por Karma) enquanto toma café, até
que a mulher chega.
- E aí seu Afonso, como você tá?
- Opa dona Karma, tudo certo mais um
dia tranquilo aqui no céu, graças a Deus, não é mesmo?
- Hahahahaha... – Ela para um
segundo e se lembra de ter dito a ele que ali era o Além. - Céu, é isso aí
mesmo. Posso sentar do seu lado?
- Claro, fique à vontade.
Karma se senta em uma das cadeiras
envolta da mesa e cruza as pernas observando a vizinhança vazia.
- É aqui onde você morava?
- Sim, eu era policial e cuidava
dessa região. Era bem alegre e todos se davam bem, sempre cheia de famílias muito
boas e crianças brincando nas ruas.
- Morreu em serviço?
- Não não, a região era realmente
pacata, diferente da maioria dos policiais eu faleci de velhice mesmo, mas
sempre me parabenizaram por meus serviços à comunidade. Era todo mundo gente
fina, sempre nos encontrávamos na missa aos domingos, nunca faltei à Igreja um
dia de minha vida!
- Vejo que é católico.
- Desde que nasci, eu mesmo que quis
fazer a catequese quando criança.
- Entendi. – De repente sua voz fica
mais aguda e infantil. – E você acha que só isso te daria um lugar no “Céu”?
Afonso torna para Karma, pálido e
com uma expressão aterrorizada. Karma agora é uma menina de 6 anos, a única
coisa que se mantem igual é o vestido cor salmão. A menina tem longas tranças
castanhas e olhos negros brilhantes, sorrindo inocentemente para o idoso, que
sua frio.
- Qual o problema moço? Eu fiz algo
de errado?
- C-como você...
- Não me reconhece? Eu tinha me
perdido dos meus pais e você prometeu me ajudar, não se lembra?
- Mas eu achei que aqui fosse...
- Achou que se livraria disso na
morte? – A boca da garota cria mais dentes, indo literalmente de orelha a
orelha, formando um sorriso perturbador.
- Não sei do que está falando. –
Afonso se esforça para manter a postura e fingir que não sabe do que se trata.
- Talvez você se lembre desse. – A
voz volta a ser de Karma momentaneamente, enquanto se desfigura mudando de
forma. Ao finalizar torna-se um garoto de 10 anos, loiro de cabelos médios
vestindo uma jardineira jeans, sua voz muda também. – Você disse que ia me
mostrar algo divertido seu Afonso, mas não foi nem um pouco legal.
- O que significa tudo isso? O que
você está querendo me mostrando essas pessoas? – diz o senhor desviando o
olhar.
- Você realmente achou que iria para
o “Céu” mesmo depois de tudo que fez? Pelos seus “serviços à comunidade” ou por
“ter ido à catequese”? Você sabe muito bem o que fez e mesmo assim tenta
mascarar suas atitudes com papel de cidadão certinho!
A colorida vizinhança se deforma, as
casas derretem e se transformam em barras de metal, aproximando-se e o
prendendo. O homem está paralisado de pavor enquanto o ambiente rapidamente se
transforma em uma jaula, apertada e bem rente ao chão.
- Mas você me disse que aqui era o
Céu!
- Eu nunca disse isso. – Karma volta
a ser ela mesma.
- Então eu estou... – Ele engole em
seco, pingando de suor. – No inferno?...
- Também não disse isso, falei que
você estava morto e esse era o Além. É meio que diferente pra cada um, depende
da sua consciência e a visão da morte.
Ela apoia um dos pés na jaula e o
olha com uma expressão sádica.
- E mesmo assim você tava tentando
se livrar do peso de ter estuprado crianças! Eu não sei dizer se isso é cômico
ou só triste, talvez você só seja um completo psicopata mesmo. Parabéns por
isso.
Conforme Karma se afasta do homem
ouvem-se cada vez mais vozes gritando socorro, o culpando e julgando.
- Eu vou ficar preso aqui pra todo
sempre? – Afonso chora de desespero.
- Depende... – O rosto de Karma se
aproxima dele com uma expressão bizarra de quem está aproveitando aquele
sofrimento. – O quE VocÊ AChA Que MeREcE?
Ela deixa o velho chorando encolhido
enquanto as vozes tomam forma de sombras e se aproximam dele. Tira a carta da
bota, a parte destruída do fio se desfaz.
- Eu até gostaria de escolher
algumas coisas da próxima vida dele só pra pessoalmente fazê-lo sofrer. Ainda
bem que esse tipo de coisa não depende de mim.
Comentários
Postar um comentário