Alin Stoian
Um homem de jaqueta de couro e olhos cansados entra pela porta de luz com uma flor de lótus em mãos. Ao atravessá-la completamente a flor em suas mãos flutua e lentamente se transforma em uma pessoa, outro homem, aparentemente de meia idade, os cabelos estavam começando a se acinzentar e tem até que poucas marcas de expressão, usa um colete de lã sobre uma camisa preta lisa.
- O-o que está acontecendo? Onde eu
estou?
- Você está morto, esse é o Além. –
responde secamente o homem de jaqueta. – Vou te responder duas perguntas,
depois vou passar as instruções do que você tem de fazer.
Ele continua andando devagar, com as
mãos nos bolsos, seu companheiro o segue, receoso.
- Certo... Quem é você?
- Vocês me chamam por vários nomes,
mas basicamente sou o que vocês consideram a Morte.
- É, faz sentido se eu estou morto.
Pergunta idiota - O homem de colete dá um tapa de leve no rosto. – Ainda tenho
direito a mais uma pergunta, certo?
Morte subitamente para.
- Tinha, você acabou de gastar sua
última. A partir daqui você está por sua conta, procure pela Karma, siga os
uivos, se ouvir. Caso não a encontre, ela vai te encontrar eventualmente pode
ficar tranquilo. Entregue isso à ela.
Ele lhe entregou um envelope.
- Um lobo??? Não é perigoso?
- Por que seria? Você já está morto,
e não tem com o que se preocupar, vai entender quando a conhecer. Pode fazer
mais perguntas à ela, mas nada garante que ela vá responder, ou que tire suas
dúvidas. Bem- vindo ao Todrem.
Antes que ele pudesse dizer mais
qualquer coisa, Morte desaparece no ar. Agora sozinho consegue perceber melhor
seus arredores, Todrem parece com uma espécie de caverna em que não era
possível ver as paredes e nem o teto. A sensação era de ser pouco iluminado mas
tudo está claro e nítido. O homem continua andando reto, encontrando vez ou
outra com alguma alma perdida, uns acenavam outros nem o notavam, e ele mesmo
ainda estava assustado demais para tentar interagir.
Até que subitamente ouve sons vindos
de não tão distante dali, até este momento tudo era um mortal silêncio. Era
difícil de ter noção de distância naquele lugar, mas ele podia ter certeza de
que, o que quer que fosse, estava se aproximando rápido. Finalmente reconhece o
som como uivos, desesperando o pobre coitado. Feliz ou infelizmente, o medo o
paralisa enquanto escuta o som cada vez mais próximo.
E da mesma maneira como Morte sumiu,
uma garota com uma pelagem de lobo cobrindo das costas até a cabeça aparece em
frente à ele. Ela se movia como um, usando as mãos como patas, rosnando e o
sondando. Demora alguns segundos para se lembrar das instruções.
- Senhora Karma? – Suor encharcava a
camisa do pobre homem.
E a garota continuou sua
investigação minuciosa, aproximando-se e o cheirando.
- O senhor Morte me disse também para
entregar isso...
Nervoso, ele pega o envelope de seu
bolso e deixa cair. Ela o pega e se levanta, sorrindo, mudando totalmente de
postura. O homem olha para o lado pois achava que ela estava nua por baixo, mas
usava roupas que inclusive não combinavam com a pele de lobo.
De pé, a garota aparentava ter entre
16 a 18 anos, os cabelos curtos e bagunçados, cinza brilhantes como a pelagem
que carrega. Veste uma camiseta curta e preta com uma calça camuflada e larga. Seus
olhos vermelho sangue são tão assustadores quanto a pele do lobo que carrega.
- Ah sim, Alin Stoian. Morte disse
que você estava chegando, sorte a sua ter me encontrado tão rápido. – disse
enquanto abria o envelope e tirava uma comprida carta de dentro. - Ou não.
Ela ameaça avançar nele, que pula de
susto. A garota ri sadicamente e começa a ler a carta, junto dela tem um fio
verde com um pequeno trecho chamuscado.
- Então... Você é a senhora Karma
que o senhor Morte comentou?
- Não precisa me chamar de senhora
não, só Karma já é o suficiente. – Ela responde sem tirar os olhos da carta.
- Escuta, me disseram que você iria
me responder algumas perguntas.
- Pergunte a vontade.
- O que é você? Uma deusa?
- Não.
- Um anjo?
- Há! Com toda a certeza não.
Ela espirra e sai fogo.
- Um demônio?...
- Olha. - Karma se aproxima e ri
maliciosamente. – Não, mas eu GOSTO desse termo.
Alin engole em seco e dá um passo
para trás.
- E bem, onde nós estamos?
- Todrem, o reino da Morte.
- Eu estou morto pra sempre?
- Sim e não.
- Como assim????
- Você está morto por agora, em
algum momento vai renascer e ter todo o ciclo de novo.
- Que bacana, e isso acontece
quando?
- Quando EU quiser.
Karma se aproxima novamente e encara
Alin de uma maneira super intrusiva, enquanto continua lendo a carta.
- Professor de faculdade, certo?
- Isso, aula de física.
- Ah sim, aparentemente morreu de
ataque cardíaco. Bom, obrigado pelo seu tempo!
Ela rasga a carta e joga no chão
enquanto vai embora.
- Espera aí, o que você quis dizer
com quando você quiser?
- Aproveite a sua estadia no Todrem!
Karma se afasta enquanto a voz de
Alin continua fazendo perguntas ao fundo, cada vez mais distante.
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